A terceirização é cruel com as trabalhadoras brasileiras

Dra. Maria Telesca: “A mulher ocupa a maior parte dos trabalhos precarizados” Crédito: Divulgação

 

Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de 2010 do IBGE revela que as mulheres recebem, em média, em torno de 72% dos rendimentos percebidos pelos homens para realizar as mesmas funções. Apesar disso, conforme o censo de educação superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o nível de instrução das mulheres é superior ao dos homens: a população feminina apresenta uma média de sete anos e meio de estudo, e a masculina, apenas sete.

As mulheres também são maioria entre os brasileiros matriculados na Universidade (55,5%) e entre os que concluem o curso superior (59,2%). As estatísticas também revelam que as trabalhadoras terceirizadas recebem, em média, salários 27% menores do que as contratadas diretamente pelo empregador. Para falar de desigualdades, o www.elas-eu ouviu a coordenadora do Comitê de Direitos Humanos e Trabalho Decente do TRT-RS, desembargadora Maria Madalena Telesca.

www.elas-eu.com.br: Existem muitos pedidos de equiparação salarial entre homens e mulheres atualmente no Tribunal? Qual o seu posicionamento a respeito disto?

Dra. Maria Madalena Telesca: Eu percebo esta demanda sim. Existem dois trabalhadores no mesmo local, fazendo a mesma coisa, e recebendo salários diferentes. As razões dos empregadores para adotarem o pagamento desigual são subjetivas e estão totalmente equivocadas segundo a lei.

www.elas-eu.com.br: A terceirização afeta muito a mulher no mercado de trabalho?

Dra. Maria Madalena Telesca: Bem, a terceirização é uma desgraça, um câncer. É capaz de destruir muita coisa na vida do trabalhador. Ele atua dentro de uma empresa em uma determinada atividade, mas não faz parte do grupo contemplado pelo sindicato. Os trabalhadores terceirizados não têm pertencimento e salário normativo. Nós percebemos o maior número de mulheres, um verdadeiro exército, no setor de limpeza e conservação. Isto é geral. A terceirização veio para ficar. A mulher ocupa a maior parte dos trabalhos precarizados porque são postos em que há maior rotatividade, permitindo que a mulher flexibilize seus afazeres com as obrigações em casa e o cuidado com os filhos.

www.elas-eu.com.br: Quais as outras desvantagens da terceirização?

Dra. Maria Madalena Telesca: O salário, como disse antes, é aviltado. O trabalhador não tem uma categoria profissional que lhe represente. A situação é grave também na indústria calçadista, nos pequenos ateliers. Na minha opinião, o problema mais sério da terceirização é o acidente de trabalho. Na limpeza existe a questão do esforço repetitivo. Além disto, não há treinamento na indústria. Este é um fenômeno mundial que precariza o salário de uma forma ampla, geral e irrestrita. E a mulher, claro, é mais frágil. Conheço quem trabalhe por quatro horas e ganhe meio piso, proporcional à jornada, pois a lei permite. Quando a profissional pertence ao quadro de funcionários, daí é diferente. Pois ela construiu uma história dentro daquela empresa.

www.elas-eu.com.br: Qual a sua opinião sobre as cooperativas?

Maria Madalena Telesca: Até mesmo os hospitais estão adotando a prática das cooperativas, todas prestadoras de serviço disfarçadas, infelizmente. Mas, algumas funcionam muito bem, e é uma boa opção. Não dá para generalizar. Uma das vantagens é a possibilidade de colocar preço no trabalho, e não é pelo mínimo. Tudo bem profissionalizado, pois os lucros são devidamente divididos. Os bons exemplos vêm do interior do estado, com os produtores rurais. Eu conheço na Espanha, uma cooperativa de advogados que é um verdadeiro sucesso.

www.elas-eu.com.br: Fazer parte de uma categoria profissional é importante?

Maria Madalena Telesca: Sim, pois tem um dissídio que te protege e estabelece benefícios. Mas nos terceirizados, os salários e garantias são muito menores. Não é o mesmo treinamento. Você fica submetido à precarização, tanto na questão remuneratória, quanto na saúde. E isto é absolutamente legal. Isto sem falar que estas empresas prestadoras de serviço são pequenas, com nenhuma idoneidade financeira. Quando termina um contrato, vai todo mundo para a rua, sem seus direitos trabalhistas. È bem cruel, e caminha a passos largos em todo o planeta. Não é um fenômeno apenas brasileiro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *