Empreendedoras sociais: unidas elas quebram as barreiras de gênero

A união faz a força, diz o ditado. A sororidade e a troca de conhecimento, características marcantes do empreendedorismo social, não só vem trazendo a prosperidade, mas quebrando as barreiras de gênero e o fim do preconceito. Um exemplo é a ONG Mulher em Construção, que tem como propósito oferecer capacitação profissional para que elas atuem como pintoras, azulejistas, eletricistas, ceramistas e hidráulicas.

Em um encontro realizado na Associação de Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), em Porto Alegre, na última semana, a presidente da entidade, Bia Kern lembrou que foi preciso lutar contra machismo, pois a atividade é realizada basicamente por homens. Hoje, graças à iniciativa, a organização já habilitou mais de quatro mil trabalhadoras para a profissão. Na visão da empreendedora gaúcha, a união é fator determinante para a quebra de barreiras. “Acredito no coletivo, dando as mãos podemos nos ajudar”, acrescenta Bia.

ONG Mulher em Construção com seu estande no evento da Ajuris Crédito: Adriana de Barros Machado

Na Associação Quilombola Peixoto dos Botinhas a produção de artesanato acontece há mais de 10 anos. As integrantes do grupo participam frequentemente de feiras comunitárias dentro e fora de Viamão, na grande Porto Alegre, cidade onde muitas delas vivem e trabalham. A herança cultural africana é vista claramente nas peças feitas a partir da fibra da bananeira e tecidos rústicos como o algodão cru e a chita. Os produtos produzidos são bolsas, jogos americanos, aventais, panos de prato e “estandartes” de santo. Muitas das criações apresentam como elemento material recebido em doação e reciclado, gerando renda complementar para as famílias.

Produtos feitos na Associação Quilombola Peixoto dos Botinhas Crédito: Adriana de Barros Machado

 

Moda e respeito ao meio ambiente

Atuando na vida social da comunidade e participando dos processos de decisão de políticas públicas, um grupo de costureiras descobriu que “podia dar um passo a mais” para garantir qualidade de vida e reduzir as jornadas extenuantes de trabalho a que eram submetidas: “Sentíamos que a vida mudava pela participação, mas o trabalho das mulheres, não”. Esse foi o relato de Nelsa Nespolo, presidente da Cooperativa Central Justa Trama, mostrando a força da união em prol de um sonho.

Apesar das dificuldades, inclusive burocráticas para fazer o registro, a cooperativa de costureiras começou a participar de licitações e aumentar a demanda de trabalho. No entanto, conforme o relato de Nelsa, a principal mudança foi a rede de contatos construída a partir da participação em fóruns e eventos de economia solidária, onde encontraram outros pequenos empreendedores e agricultores familiares: “a gente vai indo para frente e vendo os caminhos a serem construídos”.

Roupas e acessórios da Justa Trama Crédito: Adriana de Barros Machado

Hoje, a Justa Trama atua em cinco estados, com mais de 600 cooperados, atuando em toda a cadeia produtiva, desde a produção do algodão orgânico até o produto entregue ao consumidor final. A divisão dos lucros é feita de forma igualitária. No setor da beleza, Maria Regina da Silva vem investindo nos cursos de artesanato desde 2015. No caminho surgiu o Projeto Brasil Afroempreendedor onde foi oportunizada a abertura do próprio negócio através da consultoria do Sebrae. A artesão utiliza restos de malhas e couro para compor os acessórios, incluindo colares, brincos, pulseiras, turbantes e lenços. “Meus produtos levam alegria e embelezamento para o público feminino, incidindo na autoestima das mulheres”, diz.

Descoberta de potencial

Para a diretora do Senac Comunidade, Cecilia Grinberg Herynkopf, no cenário do empreendedorismo, o principal é “perseguir um sonho”. Ela aponta que a maior barreira para as mulheres ainda são as questões culturais, mas aposta em um trabalho coletivo para romper essas dificuldades. “Ninguém faz nada sozinha. Hoje, os negócios ficaram mais complexos e a grande saída é trabalhar em equipe”. Para ela, um dos pontos importantes é a construção da autonomia “abordando temas diferente com grupos de mulheres, construindo esse protagonismo”, afirmou.

A orientadora educacional do Senac Comunidade, Lívia Ferreira Paim da Silva, falou sobre os cursos disponíveis, inclusive na internet, e a importância das empreendedoras desenvolverem o planejamento estratégico dos seus negócios: “Qual legado você quer deixar? Qual a história de vida quer contar?”. Por fim, Lívia fez uma provocação, reafirmando que cada uma tem um potencial: “Se agora a gente quisesse montar uma empresa aqui, com certeza teríamos capacidade para isso”, citando, mais uma vez, a importância da união.

Evento realizado na Ajuris
Crédito: Divulgação

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