Entrevista com Beatriz Peruffo “Estamos juntas, e no mesmo barco. Todas nós sentimos as mesmas dores”

OABRS promove eventos de empoderamento feminino Crédito: Departamento de Comunicação Social

Uma conversa franca, honesta, às vezes bem humorada, sobre a condição delas nos dias atuais. Com uma longa carreira voltada ao universo feminino, há dois anos, a advogada, palestrante e empresária Beatriz Peruffo, Presidente da Comissão Estadual da Mulher Advogada da OABRS e Membro Consultora da Comissão Nacional da Mulher Advogada do Conselho Federal da OAB, fundou a Rede Mulheres mais Felizes. Um grupo fechado no facebook de networking e fortalecimento, com a participação de quase 10 mil seguidoras.

Elas-eu: Qual o objetivo deste grupo Dra. Beatriz?

Beatriz Peruffo: É o de dizer, estamos juntas, no mesmo barco. Mulheres de todos os tipos. Donas de casa, empresárias, funcionárias públicas, não importa. Todas nós sentimos as mesmas dores. Esta é conclusão que tiramos. Em primeiro lugar, é uma sede de conhecimento mesmo. As seguidoras colaboram oferecendo dicas, é uma troca. Daí sim elas podem divulgar o contato profissional, pois também somos um grupo de negócios. Falamos sobre vários assuntos. Como administradora da Rede vou autorizando as postagens de artigos, temas. É um espaço de compartilhamento, de fortalecimento, voltado principalmente ao empreendedorismo feminino. Pois não somos caixinhas ou gavetas.

Elas-eu: As participantes do grupo reclamam especificamente de quais situações?

Beatriz Peruffo: Ah, estamos cansadas. Chega! Queremos igualdade. Não precisamos de ajuda, e sim de parcerias, também na relação a dois. Um vai lavar a louça e outro vai varrer o chão. Claro, existem aquelas que são donas de casa por vontade própria e estão fortalecidas, tudo bem. Vivemos um momento de liberdade de escolha.

Elas-eu: Na sua opinião, o que mais mudou em relação ao universo feminino?

Beatriz Peruffo: A de que mulher não vota em mulher. É uma frase machista de um momento histórico e cultural. Época em que existia competição para a disputa de um homem. A única oportunidade que tínhamos era a possibilidade de casar. Ele era a tábua de salvação da vida dela. Essa era a história de algumas das nossas mães e avós que apanhavam e sofriam diversos tipos de violência e permaneciam no casamento. Agora, a concorrência é profissional, é muito diferente. A mulher que luta e consegue ocupar um cargo de poder passa a representar todas. É uma enorme responsabilidade. Somos muito cobradas, daí começam aquelas piadas de que loira é burra, é gorda porque não se cuida. É sofrido, precisamos mostrar que somos competentes constantemente.

Elas-eu: Muitas mulheres dizem que você precisa ser agressiva no mercado de trabalho, em especial com os homens, para ser respeitada. Qual a fórmula?

Beatriz Peruffo: Mudar a minha essência por causa do ambiente de trabalho é muito complicado. Mas eu tenho de me adaptar a ele. É um binômio, é bem difícil. Mas volto a falar. É tudo uma questão de essência e de um propósito de vida. Precisamos saber o porquê de estar aqui neste mundo. Daí minha fala será empoderada. Meu tom de voz vai mudar quando for preciso. Porém, teve um momento em que as mulheres tiveram de dar um pontapé na porta. E eu sou grata a elas, pois precisaram de uma agressividade maior na conquista de espaços e direitos. Para algumas mulheres, hoje, é mais fácil, elas podem escolher. Ganhamos no conhecimento, com melhores relacionamentos pessoais e respeitando as diferenças. Reforço, é muito importante a sororidade.

Elas-eu: Qual o papel da OAB em relação aos direitos das mulheres?

Beatriz Peruffo: O Conselho Federal da OAB instituíu 2016 como o “Ano da Mulher Advogada”. Pela primeira vez na Ordem, ela é vista e valorizada. Começamos um movimento nacional chamado mais mulheres na OAB. Hoje, aqui no estado, temos mais estagiárias do que estagiários. A realidade da Ordem também caminha para uma mudança. Nós precisamos ir assumindo os cargos de poder. Levantar o braço, se colocar. Precisamos construir nossa história na instituição, com conhecimento e unidas. É muito mais do que gênero. Até porque, temos algumas mulheres machistas. Gosto muito da frase do Movimento das Mulheres Negras “Uma sobe e puxa a outra”. É necessário lutar unidas pela igualdade de direitos.

Lenços doados para as pacientes do Hospital Presidente Vargas, em Porto Alegre Crédito: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

Elas-eu: A OAB recebe muitas denúncias?

Beatriz Peruffo: Não são denúncias. O que estamos fazendo hoje na Comissão Estadual de Valorização da Mulher Advogada da OABRS, e em algumas Subseções, é acolher as advogadas vítimas de violência doméstica. Com isto, fica muito claro que as agressões contra as mulheres estão em casas com diversas situações financeiras. O sofrimento não escolhe classe social. Lançamos em todo o estado, a Campanha “Não precisa ser atriz de cinema para denunciar abuso” contra o assédio sexual, um problema muito forte. Além das redes sociais, um vídeo foi apresentado na entrada da Arena do Grêmio, onde os torcedores, ou seja, milhares de pessoas assistiram a mensagem de alerta. É um passo de cada vez. Precisamos mostrar que queremos o nosso espaço, respeito. Que não é não. Fomentamos as denúncias no 180.

Elas-eu: Para finalizar, a senhora acha que a justiça brasileira está preparadapara julgar com imparcialidade todos os casos de abusos sexuais que estão correndo em segredo de justiça?

Beatriz Peruffo:A nossa lei protege a mulher. Temos a Lei Maria da Penha. Temos artigos específicos no código penal em relação ao assédio sexual em vários ambientes, em especial, no trabalho. A função da justiça é ao proibir a agressão, julgar e penalizar o agressor. Algumas mulheres hoje, preferem pedir demissão daquele emprego do que provar o crime que em determinadas situações não tem como, está ela e ele em uma sala, sozinhos. Muitas vezes a vítima, é pega de surpresa. Eu não acho os homens mais agressivos hoje do que eram antigamente, apenas mais mulheres denunciam. Nosso objetivo é fomentar estas denúncias e fortalecer a Rede de Proteção à mulher.

Confira abaixo outros assuntos abordados na entrevista para o site www.elas-eu.com.br.

Ciclo da violência:

Muitas delas me dizem: ele é um homem bom. Apenas fica agressivo embriagado. A mulher precisa ser informada de que os ataques de violência tendem a se intensificar, cada vez mais. Sempre. Os bichos em um relacionamento aumentam. Começa com meu passarinho e termina em vaca e porca. Nós não precisamos ser tratadas desta forma e permanecer em um relacionamento abusivo. A história se repete. O momento da desculpa é o de levar flores, sair para jantar. É quando entra a fase da lua de mel, e, com ela, a esperança de dias melhores. E as agressões retornam, ainda muito mais fortes. Não podemos esperar que este ciclo se complete. Quando faltou o respeito, precisamos dar as mãos e acolher esta mulher. É a hora de dizer você pode sair disto e você merece ser feliz! Precisamos ajudar, pois sozinha, é quase impossível sair desta situação. Ninguém entra em um relacionamento esperando a separação. As pessoas amam, e esperam ser amadas. E, enfatizando, não cabe a nós julgar. Cada uma tem o seu tempo de fortalecimento. Precisamos respeitar. Agora se ela está correndo risco de morte, daí é preciso chamar a Polícia Civil, no 190. Historicamente, para alguns homens, as mulheres ainda são objetos. Por isto acontecem estas violências bárbaras, a ponto de chegar no feminicídio.

Violência contra a mulher no campo:

Imagina uma agricultora. Morando no interior, em uma casinha. Esta mulher apanha e é humilhada. Estou falando em casos de agressão, não em geral. Como ela vai sair de casa para fazer a denúncia? E depois, vai ser abrigada em que lugar? É muito complicado! Quando a vítima é dona de casa e submissa, não tem dinheiro e nem sabe do resultado financeiro resultado da safra. Quem sabe tudo é o marido. Muitas acreditam ser uma obrigação ter relações sexuais com o parceiro. Imagina, se nós morando na cidade temos dificuldades normais, as agricultoras muito mais, pois padecem com a distância. Estão completamente isoladas lá, naquela área de terra. Nosso foco hoje é o fortalecimento. Vamos mostrar que a felicidade existe, é possível sim!

Campanha da OABRS sobre abuso sexual

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *