Entrevista: Doutora e professora assistente do Centro de Mulheres e Política Americanas (CAWP), Kelly Dittmar

Nos Estados Unidos, as mulheres sentem um senso de urgência para concorrer a um cargo político. Desde a eleição presidencial de 2016, tem acontecido um aumento no número de candidatas que disputam as eleições em todos os níveis (local, estadual e federal). Na Rutgers – The State University of New Jersey –, o fato tem sido analisado por cientistas sobre o papel de gênero nas campanhas. Doutora e professora assistente do Centro de Mulheres e Política Americanas (CAWP), Kelly Dittmar é uma delas. Escreveu o livro Navegating Gendered Terrain: Stereotypes and Strategy in Statewide Races (algo como A análise da questão de gênero: estereótipos e estratégia nas eleições estaduais) no qual avalia as decisões estratégicas, mensagens e táticas usadas por homens e mulheres, bem como outros estereótipos.

Seu próximo livro será baseado no relatório sobre a presença de mulheres no Congresso dos EUA. Com colegas bolsistas do CAWP, Kelly entrevistou 83 (de 108 mulheres) entre 2015 e 2017. A pesquisa detalhou a importância delas no poder, examinou diversas perspectivas no processo de formulação de políticas e explorou as realizações feitas, apesar dos desafios. Com as eleições de 2018 no horizonte, a atenção da professora volta-se para as candidatas e suas campanhas. Por e-mail, de New Jersey, nos Estados Unidos, a professora comentou sobre a presença das mulheres no poder para o portal elas-eu:

www.elas-eu.com: De que forma você analisa as eleições deste ano nos Estados Unidos? Qual a principal particularidade?

Kelly Dittmar: As eleições dos EUA deste ano são caracterizadas por uma onda de resistência na atual administração e as americanas estão desempenhando um papel fundamental como eleitoras, ativistas e candidatas. Muitas mulheres estão concorrendo, e em todos os níveis. Espero que possamos sustentar essa energia e incluir uma diversidade ainda maior, incluindo a ideológica. Somente assim poderemos nos aproximar da paridade de gênero na política americana.

www.elas-eu.com: Qual o perfil destas candidatas?

Kelly Dittmar: Temos todos os dados sobre candidatas do sexo feminino (incluindo comparações de registros históricos) em nossa página http://cawp.rutgers.edu/potential-candidate-summary-2018. É importante notar que o aumento da participação feminina acontece no partido democrata. Isso nos leva a acreditar que este crescimento está ligado a um senso de urgência de protestar contra o partido e políticos no poder. Uma visão de não apenas protestar ou votar, mas também de concorrer a cargos e ter a certeza de que estas vozes serão ouvidas e atendidas na formulação de novas leis.

www.elas-eu.com: De quem são estas vozes?

Kelly Dittmar: As instituições políticas podem representar melhor os grupos a que servem ao adotar e valorizar a diversidade de perspectivas, identidades e experiências entre seus membros. Ter mais mulheres eleitas ajuda ao alterar as agendas e outras deliberações. Isto serve para representar a diversidade da população (incluindo mulheres), bem como definir as normas e as regras institucionais benéficas a elas.

www.elas-eu.com: Ou seja, as mulheres americanas não estão representadas no Congresso e na política em geral?

Kelly Dittmar: As americanas estão sub-representadas em todos os níveis. Para ultrapassar este obstáculo e eleger mais mulheres, precisamos ter a certeza de que as americanas possam concorrer mais, entrar na disputa. Minha pesquisa mostra que o gênero está em jogo em campanhas desde a fase de seleção das candidatas. Uma vez na corrida eleitoral, elas confrontam estruturas políticas e expectativas que foram construídas para e pelos homens. Isso significa que é preciso, frequentemente, provar como sendo capazes e qualificadas para servir em um grau que não seria exigido de seus colegas do sexo masculino.

www.elas-eu.com: No livro Navegating Gendered Terrain: Stereotypes and Strategy in Statewide Races, a doutora examina decisões estratégicas, mensagens e táticas usadas durante as corridas políticas. Homens e mulheres negociam estereótipos de gênero enquanto fazem campanha. Qual é a sua conclusão?

Kelly Dittmar: Os candidatos e suas equipes têm a capacidade de reforçar as normas de gênero nas decisões estratégicas e táticas que tomam. Embora muita literatura de campanha caracterize os discursos como trabalho para atender demandas e expectativas da população, defendo a capacidade de mudar as expectativas dos eleitores de maneira que possam expandir as noções de quem pode e quem deve liderar.

www.elas-eu.com: Com mulheres tão diversas concorrendo, seria possível dizer que a igualdade de gênero poderia ser uma realidade a ser alcançada?

Kelly Dittmar: Você pode falar sobre a igualdade de gênero em números brutos, mas acredito que levará algum tempo para alcançarmos a paridade na representação política. Outra maneira de falar sobre igualdade de gênero, é claro, é o poder e a influência que as mulheres têm em nossos sistemas políticos. Isso é mais difícil de avaliar. É claro que acredito na igualdade, mas é um processo longo – não é algo que vá acontecer em apenas uma eleição. As mulheres – que representam mais de 50% da população – serão menos de 50% das detentoras de cargos em todo o país.

 

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