Entrevista Dra. Ângela Salton Rotunno. “É a coisificação da mulher”

Dra. Ângela Salton Rotunno Crédito: Unilasalle
O Ministério Público do Estado do RS registrou no mês de junho deste ano a entrada de 29.456 processos criminais, incluindo as comarcas do interior. Referente à Lei Maria da Penha, os inquéritos chegam a 7.026 casos. A capital gaúcha, seguida de Canoas e Pelotas são as cidades que mais se destacam pelo grave problema social.
 
Elas-eu: O que tem em comum os crimes que envolvem as mulheres?
Dra. Ângela Rotunno: A maior parte dos crimes que envolvem as mulheres ocorre dentro de casa. O perigo não está na rua. Precisamos perder um pouco aquela ideia de que família é aquela da propaganda do comercial de televisão. Agora, pelo menos, estamos conseguindo quantificar isto.
Elas-eu: As pessoas estão denunciando mais?
Dra. Ângela Rotunno: Sim, com certeza. Não é que não acontecia. Acontecia tanto quanto. Só que agora denunciam mais. Isto graças às campanhas e à credibilidade que as instituições democráticas adquiriram ao longo dos últimos 30 anos. O Ministério Público é outro hoje em termos de atribuições, estrutura e solidez. E isto resulta na confiança que nos é depositada para poder fazer as denúncias.
 
Elas-eu: E como estas denúncias estão sendo feitas?
Dra. Ângela Rotunno: De todas as formas. Quando existe a violência (marcas visíveis no corpo) é preciso comparecer pessoalmente, para que se possa fazer o exame de corpo de delito. Outras, pela internet. E eu acho fundamental o maior número possível de informações corretas a serem divulgadas, seja em sites, blogs, grupos de mulheres. O trabalho com esta temática, visando à conscientização das mulheres, incentiva-as a terem coragem para dar este passo importante. É o empoderamento feminino.
 
Elas-eu: Ou seja, interromper com o ciclo da violência?
Dra. Ângela Rotunno: Sim, o ciclo da violência é extenso. As mulheres apanham muito e por um longo tempo, até terem coragem de tomar uma atitude. Entendo que há dois pesos: o empoderamento delas – o mundo de hoje que permite esta conscientização-, e a correspondência das instituições democráticas que estão fazendo o seu papel.
 
Elas-eu: Quais são as preocupações do Ministério Público em relação à alienação parental?
Dra. Ângela Rotunno: Existem alguns casos que a defesa do réu está utilizando a alienação parental, questionando a guarda dos filhos. Os pais alegam que as mães estão impedindo o convívio com eles. Vamos ter de trabalhar em termos de produção de provas, isto em casos de abuso sexual e em outros tipos de violência também. Existem juízes que não são criminais decidindo isto, gerando confusão.
 
Elas-eu: Recentemente, saiu uma decisão em que um supermercado foi multado em função dos abusos sexuais de suas funcionárias. Uma alta soma em dinheiro.
Dra. Ângela Rotunno: Eu achei ótimo. Infelizmente, o ser humano necessita ser limitado. Se deixar todo mundo fazer o que quer, torna-se impossível viver em sociedade. Se mesmo com a lei as pessoas continuam agindo de maneira inadequada, existem duas formas de fazer esta punição. Uma é a física, com a prisão, e a outra, a financeira. É excelente, uma medida que serve de exemplo para outras empresas. Está mais do que na hora de se perceber estas humilhações. Eu acharia bem interessante se a empresa realizasse uma campanha interna de conscientização para todos os funcionários. Existe machismo sim e vivemos esta cultura todos os dias. Os homens necessitam ser esclarecidos e a educação deixou a desejar até os dias de hoje. As pessoas precisam ter consciência de suas atitudes. É uma escolha, e quem fizer será punido, de uma forma ou de outra.
 
Elas-eu: E qual a sua opinião a respeito deste número crescente de feminicídios no país?
Dra. Ângela Rotunno: Há 20 anos, não existia a Lei Maria da Penha. Quando comecei na minha carreira, raríssimos juízes condenavam, porque eles entendiam que em briga de marido e mulher ninguém metia a colher. Estas questões passavam longe do Judiciário, infelizmente. A violência de gênero é um grande problema social. E estamos vivendo um momento muito individualista, as pessoas estão se voltando apenas para seus interesses e suas necessidades, o que “eu quero”. Os vínculos estão se esmaecendo e a existência do outro perdendo a importância. E nestas relações, os mais fracos sempre acabam sofrendo mais. A criança ou o idoso. No caso da mulher, ainda é percebida mais como objeto, uma posse, e não como pessoa.

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