Entrevista: Presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Maria José Braga

Uma jornalista que não tenha uma história para contar sobre gritos histéricos de superiores na redação, chefes que arremessam objetos e destratam é caso raro. O comportamento tem nome: assédio moral. Infelizmente, a profissão é uma das campeãs, também, em assédio sexual. Os números são assustadores. Pesquisa feita em nível mundial pela INSI (The International News Safety Institute) e pelo IWMF (International Women’s Media Foundation) em 2014, dizia que dois terços das mulheres jornalistas já tinham sofrido algum tipo de intimidação, e a maioria delas relatou que isto aconteceu no próprio ambiente de trabalho. A maior parte nem chegou a denunciar, possivelmente por medo de perder o emprego.

O estudo “Gênero no jornalismo brasileiro”, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela organização de mídia Gênero e Número, com apoio do Google News Lab, trouxe uma análise do fato no Brasil. Os dados revelam que, apesar das mulheres serem a maioria, ainda há muita insegurança no local de trabalho e desigualdade salarial. A maioria das jornalistas afirma ter passado por situações de violência psicológica, como insultos verbais (44,2%), humilhação em público (40,5%), abuso de poder ou autoridade (63,9%), intimidação verbal, escrita ou física (59,7%), tentativa de ferir sua reputação (31%), ameaça de perder o emprego em caso de gravidez (2,3%), ameaças pela internet (13,4%) e insultos pela internet (24,7%).

Para falar sobre o assunto, o site elas-eu fez uma entrevista com a Presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Maria José Braga. Graduada em Jornalismo e em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás, com mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, iniciou sua carreira na Cooperativa dos Jornalistas de Goiás (PróJornal) e, em mais de 23 anos de profissão, foi repórter e subeditora do Jornal O Popular, professora do curso de Jornalismo das Faculdades Alfa, editora-chefe da Revista Outra Via e assessora de imprensa de diversas entidades e instituições de Goiás.

www.elas-eu: Em tempos de intolerância, racismo e machismo, quais as dificuldades enfrentadas pelas jornalistas no Brasil? Esta dura realidade sempre existiu e nunca foi denunciada, ou vem se intensificando com o tempo?

Maria José Braga: Intolerância, racismo, machismo não são coisas novas; existem desde os primórdios da organização da humanidade em sociedades. O que tem nos assustado muito é o recrudescimento dessas práticas em pleno Século 21, quando muito já havia sido conquistado pelas mulheres, pelos negros (e outros povos discriminados e vitimados) e pelas minorias em geral. Parece difícil até mesmo acreditar em tanto retrocesso, quanto mais explicá-lo. Mas as mudanças ocorridas ao longa da história (diferentes em cada país) não foram tão estruturais quanto se acreditava; foram pontuais. Isso possibilita retrocessos tão grandes sem processos de rupturas clássicas, como revoluções, guerras, ocupações territoriais e golpes. No campo do Jornalismo, durante muito tempo nem houve a presença de mulheres e negros. Atualmente no Brasil, as mulheres são maioria nas redações e os negros e pardos começam a ganhar mais espaço, principalmente depois que tiveram mais acesso aos cursos superiores. Os casos de discriminação aumentaram assim como também aumentou a disposição das vítimas para o enfrentamento, por meio da denúncia.

www.elas-eu: A FENAJ costuma receber muitas denúncias de ataques às profissionais da comunicação no Brasil? Que tipo de denúncias?

Maria José Braga: A FENAJ recebe diretamente denúncias de violências contra jornalistas e também indiretamente, por meio dos Sindicatos de Jornalistas existentes no país. Recebemos relatos de todo tipo de agressão, do xingamento (agressão verbal) ao assassinato. Denunciamos publicamente os casos e todas eles entram no nosso Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa, que é publicado anualmente. Em parceria com os sindicatos de Jornalistas, a FENAJ também age para combater essa violência, utilizando medidas protetivas, a serem adotadas quando os/as jornalistas forem submetidos a situações de risco, e também no combate à impunidade.

www.elas-eu: Quais são as orientações da FENAJ para estes casos, o que deve ser feito?

Maria José Braga: Uma orientação é geral: procurar os Sindicatos/FENAJ para fazer a denúncia pública. Mas cada caso precisa ser avaliado para que as medidas a serem tomadas sejam efetivas. Uma agressão física, por exemplo, além de ser denunciada publicamente, é preciso registrar ocorrência policial. Se a agressão for de um policial; é preciso denunciar à corregedoria.

www.elas-eu: Assédio moral, sexual e ofensas ao trabalho de jornalistas em sites da internet são constantes. Assim como insinuações, fofocas, piadas e outros tipos de desrespeito. O que fazer em cada caso? Qual o posicionamento da FENAJ?

Maria José Braga: A FENAJ condena toda e qualquer agressão a jornalistas. Mas é preciso fazer uma distinção importante: no geral, tratamos como a violência contra jornalistas as agressões cometidas com o objetivo de intimidar o/a profissional ou de impedi-lo/la de realizar seu trabalho. O que caracterizamos como atentado à liberdade de imprensa. Há um outro tipo de violência que se dá no campo das relações de trabalho e que já estão caracterizadas no âmbito da Justiça do Trabalho e da Justiça comum. Refiro-me aos assédios moral e sexual. E para esses casos, as medidas a serem tomadas devem ser distintas, para que o assediador seja de fato punido. É preciso, por exemplo, constituir provas (materiais e/ou testemunhais) antes de fazer a denúncia formal e é preciso buscar apoio.

www.elas-eu: Historicamente, as redações são locais com chefias masculinas e machistas. De que forma, na sua opinião, isto acaba refletindo no conteúdo da mídia em geral?

Maria José Braga: É claro que as redações serem chefiadas por homens e homens machistas reflete no conteúdo produzido por determinado veículo de comunicação. Mas o maior reflexo é o do machismo/racismo difuso, que está presente em todas as relações sociais e é negado, como se não existisse. Isso faz com que as mulheres e demais minorias sejam invisíveis para a mídia, que as enxerga para pautas menores. As mulheres e demais minorias não são fontes permanentes nem tem seus pontos de vistas conferidos em questões centrais da economia, da política e da sociedade.

www.elas-eu: Na sua gestão, quais são as ações desenvolvidas no combate ao machismo no jornalismo brasileiro, em especial, no que diz respeito às diferenças salariais?

Maria José Braga: As mulheres jornalistas ganham, em média, menos que os homens porque os cargos de chefia nas redações (que têm melhores salários) são majoritariamente ocupados por homens. Mas na nossa categoria não existem diferenças salariais em razão do gênero. Os pisos salariais são definidos em convenções/acordos coletivos e valem para todos e todas. Portanto, o debate tem sido sobre os problemas relacionados ao combate aos assédios moral e sexual. Queremos discutir sobre o jornalismo produzido e como melhorá-lo em termos de igualdade. Para isso, criamos a Comissão Nacional de Mulheres da FENAJ, com a participação de vários Estados brasileiros. Estamos atuando em conjunto com a Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade de Raça e Etnia (Conajira) com alguns resultados importantes, entre eles uma parceria com a ONU Mulheres e a realização de cursos e campanhas conjuntas.

 

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