Procuradoria Especial da Mulher do RS promove seminário sobre educação sem preconceitos

Como atividade do mês da mulher, a Procuradoria Especial da Mulher promoveu nesta quinta-feira (22), no Teatro Dante Barone o seminário Educação Sem Preconceitos, reunindo nove mulheres representativas da luta pela reconhecimento social de sua diversidade, negras, trans, soropositivas, prostitutas, deficientes visuais, doulas e portadoras de esclerose. Através de uma roda de conversa elas relataram experiências pessoais como ensinamento aos professores para que entendam as dores que sofreram com o preconceito e consigam acolher os alunos “diferentes”.
Coordenadora da Procuradoria Especial da Mulher, a deputada Manuela d’Ávila (PCdoB) referiu a experiência do ano passado, com o Seminário de Desprincesamento, que provocou a desconstrução de conceitos da educação machista. Para esta edição do seminário promovido pela Procuradoria, explicou, a ideia foi ampliar o alcance do debate para incluir também os coletivos de mulheres negras, trans, soropositivas, deficientes, “quando falamos em convivência com tolerância é pouco, queremos aumentar essa projeção”, afirmou.
Na abertura, a bateria Ritmo de Luta, da União da Juventude Socialista entrou no auditório ao som de tambores enquanto num painel foram projetadas imagens da vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada no Rio de Janeiro, na semana passada. “Nenhuma a menos”, gritaram as jovens socialistas.
A feminista, lésbica, sindicalista e educadora Silvana Conti fez uma apresentação do gibi sobre a Lei Maria da Penha que elaborou como resultado do ativismo na periferia. “São as protagonistas, meninas, mulheres e negras”, resumiu. A publicação ganhou tradução em espanhol e inglês, através da ONU Mulheres, com a colaboração da Ação da Mulher Trabalhista, do PDT gaúcho.
Diversidade na Roda de Conversa
A roda de conversa denominada Mulheres Diversas teve a mediação de Luelen, profissional do sexo, vice-presidenta da União Brasileira de Mulheres de Porto Alegre, dirigente da União Nacional LGBT, e integrante da Força Tarefa Jovens Lideranças.
A deficiente visual Josiane França Santos abriu os depoimentos ao falar sobre sua experiência nas passarelas em Porto Alegre, como a primeira cega a desempenhar essa atividade. Ela pertence ao grupo Inclusivass, milita na União Brasileira de Mulheres e no Coletivo Feminino Plural e no Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão. Com dois filhos, Josiane estudou e se capacitou para a profissão, com apoios estratégicos na área de publicidade. “A deficiência não deve limitar as mulheres,” observou, incentivando que elas busquem oportunidades e façam respeitar sua condição feminina.
Pelo Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Silvia Aloia relatou os preconceitos que enfrenta na convivência cotidiana por ser portadora de HIV/AIDS, situação que enfrenta há 27 anos. Ela é formanda em Administração em Sistemas e Serviços de Saúde pela UERGS; ativista; do grupo de trabalho das Nações Unidas para AIDS; e da Articulação Nacional de Luta Contra a AIDS (ANAIDS) na Comissão Intersetorial de Saúde das Mulheres do Conselho Nacional de Saúde (CISMU/CNS).
A primeira mulher trans a receber o troféu Mulher Cidadã da Assembleia Legislativa, Valéria Houston recordou o sofrimento na escola, promovido por professores que não aceitavam sua condição trans, além das práticas maldosas habituais das outras crianças. “As mulheres trans sofrem preconceito nas universidades, onde têm dificuldade de acesso nos banheiros, e também são marcadas pela negativa de uso dos seus nomes sociais”, afirmou. Sem remorsos, ela pediu que a questão de gênero seja superada para que todas possam avançar tratando também de outros problemas sociais. Ela é transexual, negra, cantora e compositora, com 25 anos de carreira profissional.
Desconstruir o racismo e o machismo
A iyalorixá dirigente da Comunidade Tradicional de Matriz Africana e Afro Umbandista “Ilé Àiyé Orishá Yemanjá” de Pelotas, Sandrali de Campos Bueno, 68 anos, leu documento de alcance histórico e social com ênfase no viés racista e machista da educação, reflexo da perversa construção da sociedade com os negros e as mulheres. Tratou, também, do contínuo desrespeito às práticas dos povos africanos, ultimamente criminalizados. O desafio, assegurou, é “como construir uma educação sem preconceito sem desconstruir o binômio racismo/machismo”. Ela é psicóloga graduada pela UNISINOS, especialista em Criminologia pela PUCRS, servidora pública, secretária executiva do Conselho do Povo de Terreiro do Estado do Rio Grande do Sul, coordenadora do GT Mulheres de Axé do NúcleoRS da Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde – RENAFROSAUDE, da organização de Mulheres Negras AKANNI, e da comissão executiva do Forum Interreligioso e Ecumenico do Rio Grande do Sul-FIRE.
A doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp (com tese sobre Ulysses, de James Joyce), e autora do livro autobiográfico E se eu fosse puta, Amara Moira, registrou os avanços dos últimos anos na compreensão da sociedade para com a realidade de travestis e profissionais do sexo. No início dos anos 80, era comum a narrativa do extermínio dessa comunidade, que ganhou uma centralidade agora através de conquistas significativas. “Isso merece comemoração”, ponderou, embora o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, “esteja sinalizando para um retrocesso”. Também destacou a produção literária sobre as histórias desses personagens sociais, que ao longo da última década registraram 40 títulos relatando suas trajetórias. “É o sentido de pertencimento social com os nossos corpos”, definiu. Ela é travesti e feminista.
Falou ainda Bruna Rocha Silveira, pós-doutoranda em Educação (UFRGS), doutora em Educação (UFRGS), mestre em Comunicação Social (PUCRS), e publicitária. Ela é portadora de esclerose múltipla, dirigente da AME (Amigos Múltiplos pela Esclerose), blogueira e feminista. E Julia Rocha, médica de Família e Comunidade, preceptora do programa de residência médica do Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, professora do curso de medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e na Universidade Federal de Minas Gerais, e doula. Ela também é cantora e compositora.
Encerrou o painel Patrícia Pereira, Afrobetizadora e Afroeducadora, palestrante e formadora; Mestra em Educação, FACED/UFRGS; Especialista em Gestão Pública e Sociedade/UFT; Pedagoga; Graduanda em Direito/UFRGS; professora na educação pública; assessora de Igualdade Racial/Diversidades da diretoria Pedagógica/SMED/Porto Alegre. Atuou na Tutoria e Coordenação de Tutoria, e é professora do Curso de Aperfeiçoamento UNIAFRO/UFRGS de promoção da Igualdade Racial na Escola. Participa do Comitê Gestor do Centro de Referência do Negro Nilo Alberto Feijó, de Porto Alegre, e do GT Projeto Territórios Negros da Prefeitura de Porto Alegre, representando a SMED.
Texto e imagem: assessoria de comunicação da Assembleia Legislativa do RS.

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