Violência doméstica impacta o mercado de trabalho

Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher apresentada pela Universidade Federal do Ceará, em parceria técnica com o Instituto Maria da Penha, trouxe à luz um dos fatores associados à problemática de gênero: o impacto no mercado de trabalho. O resultado, segundo o coordenador do estudo, Prof. José Raimundo Carvalho, é a restrição às oportunidades de emprego e de melhor bem-estar.

A pesquisa ouviu 10 mil mulheres nas nove capitais nordestinas, entre março e julho de 2016. Fortaleza se sobressai negativamente: as vítimas de violência doméstica têm seus salários diminuídos em 34%. Logo depois aparece Aracaju (SE), com 26%. “No Brasil, carecemos de estatísticas e estudos científicos. No entanto, os índices trazem à tona números inéditos”, disse Carvalho.

Consequências

Em um curto espaço de tempo, a violência doméstica afeta principalmente a habilidade e a produtividade da vítima no emprego, manifestando-se por meio de episódios de absenteísmo (ausência ao trabalho), atrasos, redução momentânea de produtividade, capacidade laborativa e perda de emprego. Em longo prazo, as consequências revertem-se em históricos de trabalho inconsistentes (períodos de empregos curtos e de desempregos longos), subemprego e redução permanente na produtividade e salário.

Depois de tabulados os dados, a pesquisa constatou que em Teresina (PI) 48% das mulheres vítimas de violência doméstica dizem ter a saúde mental afetada pelo comportamento violento do parceiro. As proporções em Aracaju e Natal são de 42% e 40%, respectivamente, e em Fortaleza, 38% das mulheres são afetadas.

Nas demais capitais, os percentuais são os seguintes: Salvador, Maceió e Recife (35%); João Pessoa (29%) e São Luís (27%). Os resultados mostram, também, que as mulheres vítimas de violência nos últimos 12 meses se ressentem de capacidade de concentração, de dificuldade em dormir bem, em tomar decisões e dizem se sentir frequentemente estressadas.

 

Insatisfação

Entre as mulheres que não sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses, a proporção das que estão muito ou extremamente satisfeitas com o atual emprego é de 43%. Já entre as mulheres vitimadas por seus parceiros, a proporção cai para 33,3%. Em outras palavras, a satisfação com o emprego atual é menor entre as vítimas.

Outro aspecto relevante é a falta de autonomia da mulher vítima de violência com relação à sua renda pessoal. Aproximadamente 17% das vítimas nos últimos 12 meses dizem que repassam parte ou a totalidade dos seus rendimentos para os parceiros.

Observou-se que 23% das mulheres vítimas de violência doméstica afirmam ter recusado ou desistido de alguma oportunidade de emprego porque o parceiro era contra. Enquanto isso, 10% das mulheres que não são vítimas de violência dizem que recusaram emprego.

Questionadas se o comportamento violento dos parceiros  interferia em seus trabalhos ou em outra atividade remunerada, as mulheres responderam que “sim” e o quadro ficou da seguinte maneira: em Salvador (22%); Teresina (20%); Fortaleza (18%); Natal (17)%; Maceió (16%); João Pessoa e São Luis (14%); Aracaju (13%) e Recife (11%).

Uma das consequências da interferência da violência doméstica no emprego das mulheres revela-se, por exemplo, no número de dias em que elas faltam ao trabalho. Em média, as  que sofrem violência faltaram 18 dias nos últimos 12 meses. Os percentuais são os seguintes: 47% das vítimas perderam de 1 a 3 dias; 22% de 4 a 7 dias; 20% de 8 a 29 dias e 12% perderam 30 dias ou mais de trabalho.

Considerando-se  o valor do salário-hora entre as mulheres vítimas da violência doméstica em R$ 8,16 (valores nominais de 2016) e uma jornada de 8 horas de trabalho/dia, chega-se ao valor de aproximadamente R$ 64,4 milhões da massa salarial perdida em decorrência do absenteísmo gerado pela violência doméstica, nas capitais do Nordeste brasileiro.

Desemprego

A pesquisa forneceu dados para que fosse feita análise da duração de emprego das mulheres vítimas e o das não-vítimas. Enquanto a duração média do emprego para as mulheres que não sofrem violência é de 74,82 meses, a duração média no emprego para as que sofrem violência é de 58,59 meses, uma queda de 22%. O custo da violência doméstica para as mulheres, até então desconhecido, se revela de forma clara, admite o pesquisador.

Um dado chama atenção: para a região Nordeste como um todo, mulheres vítimas de violência doméstica apresentam uma duração média de desemprego 21% menor do que a duração daquelas que não sofrem violência. Uma tentativa de justificar menores durações de desemprego para vítimas de violência doméstica seria, novamente, os incentivos de voltar a ter uma relação de trabalho e uma renda para se proteger de uma relação abusiva.

As  vítimas da violência doméstica parecem reconhecer, claramente, a dupla vantagem de trabalhar em expediente integral, tanto para aumentar a renda como para diminuir sua presença em casa, no intuito de minimizar o número de episódios de violência doméstica. Os menores salários se localizam no grupo de mulheres negras vítimas de violência, enquanto os maiores salários estão no grupo das mulheres brancas que não sofrem violência.

Ocupações

Segundo dados obtidos na pesquisa, as ocupações  com maior prevalência de violência doméstica são:

1) trabalhadoras nos serviços de embelezamento e cuidados pessoais – cabeleireira, cuidadora de idosos, auxiliar de lavanderia (26%);

2) vendedoras e demonstradoras – atendentes de lojas e mercados, frentista, balconista (23%);

3) trabalhadoras de informação ao público – operadora de telemarketing, telefonista, recepcionista (21%);

4) trabalhadoras dos serviços domésticos em geral – empregada doméstica, diarista (16%);

5) trabalhadoras dos serviços de hotelaria e alimentação – cozinheira, garçonete, copeira (15%);

6) escriturárias em geral, agentes, assistentes e auxiliares administrativos – assistente administrativa, auxiliar de escritório (12%);

7) trabalhadoras nos serviços de administração, conservação e manutenção de edifícios e logradouros  – limpadora de piscina, faxineira, varredora de rua (12%);

8) caixas, bilheteiras e afins – operadora de caixa, cobradoras e afins (5%);

9) gerentes de produção e operações – gerente de produtos bancários, gerente de lojas e supermercados (5%);

10) técnicas da ciência da saúde humana  – técnica de enfermagem, esteticista (4%);

11) outras ocupações (31%).

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